Allan Simon: fragmentação nas transmissões não se sustenta
No programa Futebol em Contexto, o colunista da Trivela Allan Simon defendeu que a atual pulverização dos direitos de transmissão esportiva no Brasil, dividida entre TV aberta, streamings pagos e canais no YouTube, não deve se manter no médio prazo. Ao lado de Tim Vickery, ele apontou que o mercado tende a passar por um movimento de convergência semelhante ao que já ocorreu com os portais de notícias brasileiros nos anos 2000.
Allan Simon também questionou a viabilidade financeira de manter tantos canais e grades de programação ao mesmo tempo. A comparação com os portais de internet do início dos anos 2000 foi o fio condutor da análise: na época, dezenas de marcas disputavam o mesmo público e acabaram se fundindo ou desaparecendo.
"O capitalismo fala bastante, mas não aguenta a concorrência. Lembra dos portais de notícias no Brasil? Todo mundo queria ter um. Era AOL, UOL, Bol, o Terra, o IG. Com o tempo, um monte foi caindo, o UOL e o Bol não aguentaram duas semanas, na verdade. Era o Brasil Online da Abril e o Universo Online da Folha, eles viraram uma coisa só em semanas. Então o capitalismo não aguenta muita concorrência. Então eu acredito que tanto na casa de aposta como nas transmissões, daqui a uns dez anos a gente vai ter uma convergência maior para menos marcas."
O jornalista alertou que essa concentração não deve ser tratada como boa notícia para o torcedor. Menos marcas disputando os direitos tende a significar mensalidades mais caras, já que hoje a fragmentação é justamente o que mantém os preços das assinaturas mais baixos. É o tipo de raciocínio que quem acompanha a dinâmica de mercado esportivo reconhece: competição entre plataformas pressiona preço para baixo, e a consolidação inverte essa lógica.
Allan Simon voltou ao tema simulando a criação de um canal fictício próprio para ilustrar por que considera o modelo atual insustentável. Ele descreveu como uma grade de 24 horas por dia, mantida com equipe própria de narradores, comentaristas e repórteres, tenderia a se resumir a debates repetitivos sobre lances polêmicos, como um pênalti duvidoso a favor do Flamengo.
"Vai ser botar um monte de comentarista pra falar, debater os mesmos assuntos o dia inteiro, que é o que a TV paga tá fazendo hoje. Então vai ficar lá: Alan Simon e Tim Vickery debatem se foi pênalti ou não para o Flamengo, das nove às onze. Das onze à uma, a gente vai colocar mais duas pessoas pra comentar se foi pênalti ou não para o Flamengo. Das uma às três, vão entrar mais três pessoas pra discutir se tem uma nova imagem que mostra que foi sim pênalti para o Flamengo. Às três da tarde, nós vamos exibir o VT do jogo. E às cinco horas as últimas informações sobre a nota oficial do pênalti do Flamengo. É isso que virou hoje em dia a programação. É terrível", desabafou.
O mesmo raciocínio, segundo Allan Simon, vale para a quantidade de canais dedicados a competições de nicho, como campeonatos europeus de menor apelo popular no Brasil. Citando a atual oferta só na TV por assinatura, com três canais do SporTV, seis da ESPN, além de BandSports, N Sports e Sportnet, ele resumiu sua avaliação sobre a sustentabilidade desse ecossistema no médio prazo: "Eu não acredito que isso seja sustentável a médio prazo, não."