Futebol

Deschamps sai, Zidane entra: a complexa sucessão de lendas na França

ResumoDidier Deschamps deixou o cargo de técnico da seleção francesa após 14 anos. Zinédine Zidane assume a função. A dupla foi campeã mundial como jogadores em 1998, mas carrega uma história de tensão silenciosa nos bastidores. A sucessão envolve complexidades além do desempenho esportivo.

Didier Deschamps deixou a seleção francesa após 14 anos. Zinédine Zidane assume o cargo. A dupla foi campeã mundial em 1998, mas carrega uma história de tensão silenciosa. Entenda os bastidores da sucessão.

Gustavo Pereira Lacerda
por Gustavo Pereira Lacerda · 21 de julho de 2026
Deschamps sai, Zidane entra: a complexa sucessão de lendas na França

Poucas trocas de comando carregam tanto simbolismo quanto a que acontece agora na seleção francesa. Depois de 14 anos no comando dos Bleus, Didier Deschamps deixou o time depois da Copa do Mundo. Em seu lugar chega Zinédine Zidane, talvez o único nome capaz de assumir o cargo sem precisar "se provar".

A sucessão parecia inevitável há anos, mas não foi simples. A dupla carrega uma história de títulos juntos, mas também tensão, cobranças e um clima de expectativa envolvendo a seleção. Durante praticamente todo o ciclo de Deschamps, a figura de Zidane esteve presente como uma possibilidade permanente. Sempre que a França fracassava em um grande torneio ou surgiam dúvidas sobre o futuro do treinador, o nome do ex-camisa 10 voltava imediatamente ao debate público.

Segundo o jornal francês "L'Équipe", essa expectativa constante criou uma dinâmica delicada entre duas das maiores lendas do futebol francês. Agora, com a mudança concretizada, Zidane herda uma seleção talentosa e uma das sucessões mais complexas do futebol de seleções.

De companheiros a sucessores: a parceria que virou disputa

Antes das comparações entre técnicos, havia uma parceria dentro de campo. Deschamps e Zidane dividiram o vestiário durante boa parte dos anos 1990. Foram companheiros na Juventus e disputaram 55 partidas juntos pela seleção francesa. Os papéis estavam definidos: Deschamps organizava, equilibrava e liderava; Zidane decidia. Foi assim que a França construiu a geração que conquistou a Copa do Mundo de 1998 e a Eurocopa de 2000.

Naquele período, praticamente não houve atritos relevantes. O episódio mais conhecido aconteceu durante a Copa de 1998, quando Zidane foi expulso contra a Arábia Saudita após agredir um adversário. Deschamps criticou publicamente a atitude do companheiro, mas rapidamente pediu desculpas, e o assunto foi encerrado. A relação parecia sólida, e as tensões surgiriam apenas muitos anos depois.

O ponto de ruptura silencioso

O ponto de ruptura nunca aconteceu diretamente entre Deschamps e Zidane, e o problema foi o contexto. Em 2012, Laurent Blanc deixou o comando da seleção francesa, e Deschamps assumiu seu lugar. Segundo reconstrução do "L'Équipe", Zidane sempre enxergou que Blanc havia recebido pouco respaldo da Federação Francesa naquele processo. Como amigo e companheiro da geração campeã mundial, tomou naturalmente o lado do antigo treinador.

Deschamps sempre negou que tivesse articulado sua chegada antes da saída oficial de Blanc. Mesmo assim, aquela mudança criou um desconforto silencioso. Não houve conflito público, nem rompimento, mas a partir daquele momento a relação deixou de ser apenas entre dois ex-companheiros de equipe.

A sombra de Zidane sobre o comando de Deschamps

Poucos técnicos convivem tanto tempo com um sucessor tão óbvio. Durante praticamente toda a passagem de Deschamps, Zidane foi apontado como o próximo treinador da França. Primeiro quando ainda era auxiliar de Carlo Ancelotti, depois já comandando o Real Madrid. Mais tarde, conquistando três Champions League consecutivas. Desde sua saída do clube espanhol, ficou aguardando apenas a oportunidade de assumir a seleção.

Essa expectativa nunca desapareceu. Cada renovação contratual de Deschamps era acompanhada pela mesma pergunta sobre Zidane, e cada eliminação em grande torneio reacendia o mesmo debate. Segundo o "L'Équipe", Deschamps nunca culpou Zidane diretamente por essa situação. O problema era o ambiente criado ao redor da seleção. Ter um sucessor tão prestigiado disponível no mercado fazia com que qualquer resultado abaixo das expectativas colocasse sua permanência em discussão.

Perfis diferentes, mesmo legado

A troca de comando também representa uma mudança de perfil. Deschamps construiu sua carreira como treinador reproduzindo características que tinha como volante: pragmatismo, controle emocional, organização defensiva e competitividade. Sua França raramente encantou de maneira constante, mas quase sempre foi extremamente difícil de vencer. Durante mais de uma década, a França tornou-se presença obrigatória nas fases decisivas: campeã da Copa do Mundo de 2018, vice em 2022 e amplo favorito na última edição.

Zidane chega com uma imagem diferente. Embora seus times no Real Madrid fossem mais equilibrados do que a memória popular sugere, existe uma percepção de futebol mais ofensivo, mais técnico e baseado na qualidade individual. Não significa necessariamente uma ruptura completa, até porque a seleção continua sendo formada, em grande parte, pelos mesmos jogadores. Mas é possível imaginar mudanças na forma como o talento ofensivo francês será explorado.

O momento ideal para Zidane

Se houvesse um momento ideal para Zidane assumir a França, talvez seja exatamente este. A nova geração oferece praticamente tudo o que um treinador gostaria de encontrar. Aurélien Tchouaméni e Eduardo Camavinga garantem equilíbrio no meio, Michael Olise vive o melhor momento da carreira, Ousmane Dembélé continua desequilibrando no um contra um e Kylian Mbappé permanece como uma das principais estrelas do futebol mundial.

Poucas seleções conseguem oferecer tanta profundidade técnica. Isso faz com que a missão de Zidane não seja montar uma equipe competitiva, porque ela já existe. Seu desafio será potencializar um grupo que, sob Deschamps, muitas vezes parecia jogar abaixo do talento disponível.

O peso do legado

No Real Madrid, Zidane trabalhou com alguns dos melhores jogadores do mundo e conquistou três Champions League consecutivas. Na seleção, porém, o contexto é diferente: menos tempo para treinar, menor controle sobre a evolução coletiva e torneios curtos em que detalhes definem campanhas inteiras.

Embora a narrativa apresente Zidane e Deschamps como opostos, a realidade é mais complexa. Os dois compartilham praticamente a mesma história dentro da seleção francesa. Foram campeões juntos, construíram amizade e passaram décadas representando o futebol francês em diferentes funções. Segundo o "L'Équipe", mesmo nos momentos de maior tensão, nunca houve ruptura definitiva entre ambos. O respeito sempre permaneceu, e talvez por isso essa sucessão faça tanto sentido.

Perguntas Frequentes

Quanto tempo Deschamps ficou na seleção francesa?

Didier Deschamps comandou os Bleus por 14 anos, deixando o cargo depois da Copa do Mundo.

Zidane e Deschamps foram companheiros de seleção?

Sim. Eles dividiram o vestiário da França durante boa parte dos anos 1990, disputaram 55 partidas juntos e foram campeões da Copa de 1998 e da Euro 2000.

Por que a sucessão foi considerada complexa?

Zidane era apontado como sucessor natural durante todo o ciclo de Deschamps, criando uma dinâmica de expectativa constante. Além disso, a relação ficou abalada após a saída de Laurent Blanc em 2012.

O que muda no estilo de jogo com Zidane?

Zidane tem imagem de futebol mais ofensivo e técnico, embora seus times no Real Madrid fossem equilibrados. A mudança deve ser mais na forma de explorar o talento ofensivo do que uma ruptura completa.

Quais jogadores Zidane terá à disposição?

O elenco inclui Aurélien Tchouaméni, Eduardo Camavinga, Michael Olise, Ousmane Dembélé e Kylian Mbappé, entre outros.

sucessão na seleção francesa carreira de Zidane como técnico ciclo de Deschamps na França

Leia também

Publicidade