De acidente na infância a recordista mundial: Alison dos Santos
Quando Alison dos Santos pulverizou, em Zurique, o recorde mundial dos 400 metros com barreiras (45s80), muita gente ainda não conhecia a história por trás das cicatrizes na cabeça. Surgido no atletismo antes dos 20 anos, ele parecia mais velho. O motivo: marcas visíveis que muitos confundiram com alopecia precoce.
Aos dez meses de vida, um acidente doméstico com óleo fervente o deixou hospitalizado por meses. Nascido em São Joaquim da Barra, a pouco mais de 300 km de São Paulo, Alison cresceu com os pais, Sueli e Gérson, e passava tempo na casa da avó Geli, onde tudo aconteceu. Geli fervia óleo para fritar peixe quando um descuido permitiu que o pequeno agarrasse a frigideira. A avó também ficou ferida. Os dois ficaram hospitalizados, e Alison comemorou o primeiro aniversário no hospital de Barretos.
As sequelas, cicatrizes e falhas no couro cabeludo, causaram timidez extrema e bullying na escola. Ele se refugiava no judô, num centro esportivo local, sempre de boné amarelo. "Eu adorava aquilo, de verdade. Mas minha família não é rica, então era difícil", contou ao site da World Athletics. Com a ajuda do amigo Alexandre Inocêncio, o atletismo entrou na vida dele. "Aquele ambiente, a amizade e o amor que encontrei na comunidade do atletismo foram o que me ajudou a superar tudo. Acho que isso me salvou", avaliou no podcast "Ready, Set, Go".
Os resultados vieram: quinto no Mundial Sub-18 de 2017, bronze no Sub-20 em 2018, finalista em Doha. Em Tóquio, bronze com 46s72, atrás do recorde de Karsten Warholm (45s94). Em 2022, venceu a Diamond League e foi campeão mundial em Eugene (46s29). Uma lesão no menisco lateral do joelho direito, em 2023, exigiu cirurgia. Voltou com bronze em Paris (2024) e prata no Mundial de Tóquio (2025), após reclassificação de Rai Benjamin. Em 2026, na melhor forma, venceu Warholm em Chorzow e, dias depois, em Zurique, cravou 45s80, com cabelo trançado: "Mostrar mais o meu lado brasileiro e fazer com que as pessoas se divirtam".